Boa Vista do Incra discute sucessão rural


Município dá exemplo de como superar êxodo de jovens.


Família Siqueira recebe integrantes da Rede Leite.

Boa Vista do Incra, no Noroeste gaúcho, dá exemplo de como superar um dos maiores desafios do país, a falta de sucessores no campo. Na quarta-feira (09/05), uma experiência concreta de sucessão motivou a visita ao município de um grupo formado por extensionistas da Emater/RS-Ascar, pesquisadores da Embrapa e da Universidade Federal de Santa Maria (Ufsm). O encontro, realizado na propriedade da família Siqueira, no interior do município, foi promovido pelo Grupo Social da Rede Leite – Programa em Rede de Pesquisa-desenvolvimento em Sistemas de Produção com Atividade Leiteira no Noroeste do Rio Grande do Sul.

“"Agradeço de coração a visita de vocês"”, disse o anfitrião, Elvio Siqueira. Do total de sete filhos do casal Elvio e Catarina, seis estão envolvidos com atividade agropecuária e três trabalham na propriedade dos pais. “É gratificante porque a gente tocou um serviço que o pai começou”, disse o caçula, Altair Siqueira, um dos irmãos responsáveis pela produção anual aproximada de 590 mil litros de leite.

O caso da família Siqueira serviu para ilustrar a tese da pesquisadora da Ufsm, a doutoranda em Extensão Rural, Aline Barasuol. Segundo ela, o jovem que tem uma experiência positiva no meio rural tende a permanecer no lugar. Ao contrário, "se o sentimento for negativo, “a tendência é se afastar, é negar o rural e aí, o jovem vai procurar algo positivo na cidade. O nosso discurso está vinculado ao que a gente sente"”, disse Aline.

O sociólogo da Embrapa Pecuária Sul (Bagé/RS), Jorge Sant’Anna, enxergou na família Siqueira três fatores decisivos à sucessão rural: descentralização do poder paterno, interesse da família em aprender e inovar e apoio do governo. “"Primeiro houve uma vontade dos pais de que os filhos tocassem a propriedade, os pais não foram intolerantes. Segundo, a produção leiteira exige intelecto, conhecimento e estes rapazes incorporaram isso e realizaram investimentos, o que fez com que a propriedade saltasse, em oito anos, de 72 mil litros ao ano para quase 600 mil litros, com um significado econômico. E houve uma interferência, um apoio, do governo federal, representado pela Embrapa, estadual, representado pelos extensionistas da Emater, e da prefeitura. É uma situação exemplar de uma família que recebeu apoio nas três instâncias do governo, apoiando para que a sucessão ocorresse de uma maneira bem sucedida"”, analisou o sociólogo da Embrapa.

Contudo, ponderou Sant’Anna, o Brasil ainda não inverteu o fluxo migratório, acentuado a partir da década de 1950: há mais gente saindo do que permanecendo no meio rural. “"Não é que o movimento de saída de jovens do meio rural tenha cessado, mas não tem mais tanta intensidade. Há um movimento de permanência"”, disse Sant’Anna.

Histórico
Na década de 1970, a construção da usina hidrelétrica Passo Real, em Salto do Jacuí, alagou a antiga propriedade da família Siqueira. Os agricultores foram reassentados pelo governo em Boa Vista do Incra. No município, Élvio e Catarina se casaram e tiveram sete filhos.

A produção de leite em escala comercial iniciou em 1996, na época o plantel leiteiro não passava de 12 animais e a produção chegava a 44 mil litros ao ano.

Em meio a uma crise com a falta de pasto para o rebanho a família Siqueira recebeu a visita de um extensionista da Emater/RS-Ascar. Com uma trena, foicinha e balança, o extensionista mostrou aos agricultores como pesar e calcular a quantidade de pasto necessária para alimentar o rebanho. Ao invés de três, o cálculo feito pelos rapazes mostrou que seriam necessários, pelo menos, 30 piquetes. “Sobrou boia, as vacas saíam do piquete de barriga cheia”, lembrou Altair.

Em busca de mais informações, a família Siqueira ingressou na Rede Leite, em 2007. Desde então, a propriedade tem recebido a visita constante de pesquisadores, professores, extensionistas e administradores públicos.

Em duas décadas, os irmãos Siqueira adquiriram trator, resfriador, ordenhadeira e, mais recentemente, investiram em um estábulo para compostagem (compost barn). Os investimentos em conhecimento técnico, produtividade e conforto dos animais tem por base uma cautelosa gestão financeira.

“"Começamos tirando leite num banquinho feito de cepo de madeira, enfrentamos o barro e hoje estamos com o sistema de confinamento das vacas"”, resumiu o jovem Altair Siqueira.

Também participaram do encontro os secretários municipais de Agricultura e Administração, Marcos Maciel e Maurício Colvero, respectivamente, assistente técnica regional Social Isabel Robaert de Souza, e o supervisor interino da microrregião da Emater/RS-Ascar de Cruz Alta, Abel Toquetto.

Assessoria de Imprensa da Emater/RS-Ascar Regional de Ijuí
Jornalista Cleuza Noal Brutti
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